terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Entrevista com o Dr. Renato Veras


Diz que ainda será preciso "uns dez anos" para que o país aprenda a lidar com o envelhecimento da população




Os filhos são comprometidos demais emocionalmente para conseguir ter clareza das necessidades dos pais?

Dr. Renato Veras: Quando os filhos ficam muito comprometidos emocionalmente, é muito mais por espelhar a própria passagem dos anos - e constatar que também já não são mais jovens. Ainda será preciso uns dez anos para que aconteça uma mudança cultural em que  a sociedade se prepare de fato para lidar com seus idosos. Inclusive os próprios filhos.


Hoje existe uma diminuição de internações dos pais em casas de repouso?

Dr. Renato Veras: Com certeza diminuiu. Mas não porque os filhos estão mais nobres e passaram a cuidar de seus pais por prazer. Atualmente, pega muito mal internar os próprios pais, especialmente após denúncias de que as instituições são de baixa qualidade.

O aumento da longevidade tem gerado uma novidade:  os filhos estão envelhecendo junto com os pais. E agora?

Dr. Renato Veras: Acho que é uma das melhores situações. Um cuida do outro, um protege o outro. Há afinidades, a convivência. flui melhor, há maior compreensão das necessidades. E as diferenças geracionais praticamente desaparecem.


Os filhos costumam reclamar que os pais têm resistência a se deixar cuidar. Como lidar com isso?

Dr. Renato Veras: Tudo depende da relação que eles tiveram ao longo da vida. Se o filho nunca se aproximou de verdade dos pais, é óbvio que qualquer tentativa de cuidado é entendida com uma enorme interferência. Já aqueles que sempre tiveram uma boa relação tendem a conversar sobre as necessidades e chegar a um acordo. É comum pais idosos se preocuparem em ser mais um peso, uma responsabilidade na vida dos filhos. Dizem que não querem ir à fisioterapia ou fazer ginástica para evitar gastos de recursos e de tempo dos filhos. É uma forma de continuar protegendo a ninhada. Mas é uma pseudoproteção, porque a falta da prevenção pode gerar problemas mais graves no futuro. É enorme a variedade de tribos de idosos. Há aqueles, em geral homens, que trabalharam a vida inteira, exerceram cargos de chefia e não aceitam as recomendações do filho. Acostumaram-se a mandar, perderam seu status, renda, e o filho que eles criaram quer dizer o que fazer. Esse filho tem de ter paciência e insistir, negociar. Tem outra tribo para a qual o passeio é ir ao médico, quer mais de uma opinião, quer trocar de remédio, vive em função da doença. São dilemas da vida que os pais também tiveram de lidar com os filhos na adolescência.


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