Entrevista com o Dr. Renato Veras
Diz que ainda será preciso "uns dez anos" para que o país aprenda a lidar com o envelhecimento da população
Dr. Renato Veras: Quando os filhos ficam muito comprometidos emocionalmente, é muito mais por espelhar a própria passagem dos anos - e constatar que também já não são mais jovens. Ainda será preciso uns dez anos para que aconteça uma mudança cultural em que a sociedade se prepare de fato para lidar com seus idosos. Inclusive os próprios filhos.
Hoje existe uma diminuição de internações dos pais em casas de repouso?
Dr. Renato Veras: Com certeza diminuiu. Mas não porque os filhos estão mais nobres e passaram a cuidar de seus pais por prazer. Atualmente, pega muito mal internar os próprios pais, especialmente após denúncias de que as instituições são de baixa qualidade.
O aumento da longevidade tem gerado uma novidade: os filhos estão envelhecendo junto com os pais. E agora?
Dr. Renato Veras: Acho que é uma das melhores situações. Um cuida do outro, um protege o outro. Há afinidades, a convivência. flui melhor, há maior compreensão das necessidades. E as diferenças geracionais praticamente desaparecem.
Os filhos costumam reclamar que os pais têm resistência a se deixar cuidar. Como lidar com isso?
Dr. Renato Veras: Tudo depende da relação que eles tiveram ao longo da vida. Se o filho nunca se aproximou de verdade dos pais, é óbvio que qualquer tentativa de cuidado é entendida com uma enorme interferência. Já aqueles que sempre tiveram uma boa relação tendem a conversar sobre as necessidades e chegar a um acordo. É comum pais idosos se preocuparem em ser mais um peso, uma responsabilidade na vida dos filhos. Dizem que não querem ir à fisioterapia ou fazer ginástica para evitar gastos de recursos e de tempo dos filhos. É uma forma de continuar protegendo a ninhada. Mas é uma pseudoproteção, porque a falta da prevenção pode gerar problemas mais graves no futuro. É enorme a variedade de tribos de idosos. Há aqueles, em geral homens, que trabalharam a vida inteira, exerceram cargos de chefia e não aceitam as recomendações do filho. Acostumaram-se a mandar, perderam seu status, renda, e o filho que eles criaram quer dizer o que fazer. Esse filho tem de ter paciência e insistir, negociar. Tem outra tribo para a qual o passeio é ir ao médico, quer mais de uma opinião, quer trocar de remédio, vive em função da doença. São dilemas da vida que os pais também tiveram de lidar com os filhos na adolescência.
15:12
Medicina e Saúde


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